Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

E de repente, em conversa com uma (grande) amiga sobre o OE 2009 apresentado (quase todo) recentemente, tive uma ideia melhorzinha!... Isto não é o sketch final, é uma sinopse possível com alguns detalhes apontados. Tudo começa na Assembleia da República...

Emissão televisiva, música clássica, símbolo da Assembleia da República, locutor com voz suave: "E vamos agora em directo para a Assembleia da República, para assistir à apresentação do Orçamento de Estado de 2009". Sala na Assembleia da República. Presentes: Ministro Teixeira dos santos, Augusto Santos Silva e Jaime Gama. Representantes dos grupos parlamentares PS, PSD (Paulo Rangel), PCP (Bernardino Soares), BE (João Semedo), CDS-PP (Diogo Feio). Flashes de máquina fotográficas, jornalistas à espera. Silêncio total. Os presentes entreolham-se. Olham para o chão. Olham para o tecto (isto ainda leva um certo tempo). O Ministro teixeira dos Santos: "Deve estar mesmo, mesmo, mesmo a chegar!" com ar tranquilizador. Entreolham-se todos...silêncio. Conversa de elevador entre duas pessoas: "Ah, então a selecção lá empatou, han?" - "ah, pois, pois..." - corte abrupto para o separador da série americana "24": "TIC, TAC, TIC, TAC, TIC, TAC: Os seguintes eventos tiveram lugar entre 16 e as 17 horas". Mesma cena, com mais conversas de circunstância...olhares cruzados...caras de impaciência. Um dos representantes vira-se para os do PSD "Então, hãn? Novo líder, não é? Hã? Manela! Ah grande Manela..." O representante do PSD retribui com um sorriso amarelo e um encolher de ombros, como quem diz "bah". _ separador 24: "Os seguintes eventos tiveram lugar entre 17 e as 18 horas". Mais conversas de elevador e silêncios embaraçados. A sequência de separadores "24" repete-se umas 3 vezes, para simular a passagem das 5 horas de espera, intervalados com conversas cada vez mais absurdas e um ar cada vez mais desgastado dos representantes parlamentares - na última sequência já estão descalços, a fumar, com as gravatas desapertadas e a olhar para o relógio, a ter conversas corriqueiras sobre refeições, futebol, filhos, programas de televisão, etc. Na 3ª sequência, o Ministro das Finanças anda de lado discretamente até desaparecer do plano. Na cena seguinte está num recanto da sala, abre um telemóvel articulado (à "24") e fala com um assessor. O ecrã divide-se em dois, (à "24") e aparece um assessor ao telefone, com os pés em cima da mesa, maltrapilho e a fumar, com ar desmazelado e preguiçoso e com um ecrã de computador em segundo plano. Assessor: "Oh chefe, esteja descansado que isto está quase, quase! Sabe o que é, o Magalhães crashou e tal" Em segundo plano, atrás do ecrã, surge uma cabeça: "hey! Inflação escreve-se com um "s" ou com dois?" "Dois!" responde o assessor. - separador do 24- Plano de um dos assessores a escrever o orçamento no computador. Mesa toda suja, com uma sandes em cima do teclado e um cinzeiro cheio. Outro assessor atrás dele a olhar para o ecrã.  O que escreve insere os caracteres um de cada vez, muito lentamente, com os indicadores e a língua entre os lábios. - separador do 24- A mesma cena, decorre algum tempo. O colega interrompe-o e diz-lhe: "Epá, enganaste-te! Não é 2.5, é 2.9!" O outro tecla sucessivamente no backspace com cara de enfado. - separador do 24- A "pen" finalmente está pronta e um estafeta leva-a até à AR numa bandeja de prata. O Ministro recebe-a com satisfação e insere-a no Magalhães...que dá um ecrã de erro: "ERRO: O DOCUMENTO QUE PRETENDE ABRIR FOI CONSIDERADO PELO FMI COMO SENDO DEMASIADO OPTIMISTA. PRETENDE ABRI-LO MESMO ASSIM? SIM - NÃO." O Ministro levanta os olhos do ecrã com um sorriso embaraçado. - corte abrupto: Logotipo do Tempo de Antena. "Interrompemos esta emissão para um espaço, etc, etc." Associação de Humoristas Portugueses. Um representante da associação interrompe o sketch para se queixar da falta de condições de trabalho, porque o governo teima em roubar-lhes os momentos cómicos "isto assim não dá, escrever sketches assim é redundante e está cada vez mais difícil" e enumera algumas situações do passado que eles "toleraram, mas agora chega", porque o governo teima em imiscuir-se na sua área de trabalho. Sai abruptamente da sala e fica o relógiozinho a contar no canto, durante uns 5 segundos ainda...silêncio. E corta para outra coisa qualquer.



publicado por João Silva às 02:14 |
editado por Miguel Gomes em 08/11/2008 às 03:10link do post | comentar | favorito

5 comentários:
De João Silva a 16 de Outubro de 2008 às 02:48
Muito engraçado! Gostei dos pormenores do Magalhães e dos erros ortográficos.


De Marta a 16 de Outubro de 2008 às 09:31
O meu também era sobre o OE. Era porque ainda está só em esboço mental... não sei se consigo fazer isto, canervos.
Agora vou ler o teu, já volto.


De guifonseca a 16 de Outubro de 2008 às 16:03
Eu curto imenso deste sketch. Está grande sem ser enfadonho e tens momentos muito bons. (O "demasiado optimista" é genial...)

Só troço o nariz ao final com a associação de humoristas. Estava a curtir imenso do sketch e depois... parece uma que foges a uma conclusão. Experimenta brincar com o facto de só metade ter chegado, ou mesmo coma resposta a pergunta se quer abrir na mesma o documento. Tens uma ideia boa demais para te desviares no final, acho eu...

Mas parabéns pelo sketch,
gui


De Miguel Gomes da Costa a 17 de Outubro de 2008 às 01:19
...confesso que o final foi o resultado de um momento de pânico. Estive várias vezes a pensar...como é que acabo isto, como é que acabo isto...como é que acabo isto? E apetecia-me despejar um bocadinho a minha acidez e o sarcasmo corrosivo que às vezes destilo, sobre a forma como as nossas instituições mais preciosas e frágeis se tornaram tão cómicas. E apeteceu-me desancar o Governo por estar a monopolizar o trabalho que devia ser dos humoristas!...
Isso...e porque não me ocorria um final bombástico e surpreendente que pudesse fazer uma transição para outra coisa qualquer. "Que diacho, Miguel!", pensei, "tu tens liberdade criativa!", reiterei, "tu até podes meter uma aula de Salsa ou um paquete com dinossauros versados em grego clássico, tocadores de flauta de pan e cobertos de chocolate, aparecerem em cena!", concluí. E se assim pensei, melhor o fiz.
Também é porque não queria que os sketches se tornassem demasiado "certinhos", com uma narrativa linear. Queria que mijassem fora do penico, "think outside the box", essas coisas. Se calhar, acabei por mijar dentro da caixa e meter o penico na cabeça...
Alguém entende o que quero dizer?

Mas isto ainda não é o sketch, é uma série de ideias parvas mal alinhavadas. Até estruturar e passar a limpo, muita coisa vai mudar, garanto.


De guifonseca a 17 de Outubro de 2008 às 13:20
Desculpa...

... fiquei a imaginar-te a urinar para dentro de uma caixa com um penico na cabeça.

Quando escreveres o sketch uma ideia de final vai nascer, "no problemo". A ideia é muito fixe e tem perninhas para andar. Se esse fim resultar, fica Monty Pytiano mas com piada. Dizes não à linearidade narrativa? Então... penico na cabeça. :)


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