Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

... É o que vão pensar. Lembrem-se que foi escrito antes de eu estar habilitado para escrever humor. (Acabo de ter uma ideia para um sketch, neste preciso momento em que escrevo... Restaurante, duas pessoas a conversar naturalmente, de repente uma fica triste, a outra grita desesperada «oh meu deus, há algum humorista na sala?»... e por aí fora).

Acho interessante a ideia de se publicar os textos com que concorremos para o curso. Ao ler o meu penso o quão diferente ele seria se fosse escrito nos dias de hoje (sim, porque Julho foi há séculos atrás). Formalmente seria muito diferente, a estupidez seria a mesma. Não é um texto muito estruturado, é mais um suporte para piadas.

Aviso: É muito idiota. Mesmo.

 

Elogio Fúnebre

 

 

Foi com profunda consternação, e alguns confetis, que o bairro recebeu a notícia da morte do Raimundo.

Pessoa simples, de prazeres singelos, Raimundo gostava do sorriso de uma criança, de ouvir os pássaros numa manhã de Primavera, do cheiro a terra molhada, e de ver acidentes de comboio.

Assaz inteligente, e consciente disso, afirmava, um tanto arrogante, ‘inteligente como sou, das duas umas, ou me torno um  génio ou me torno cretino’. Saiu cretino. Característica que, mesmo estando calado, era por demais evidente aos que o observavam.

Dizia-se religioso, mas raramente o mostrava. As excepções envolviam, invariavelmente, eliminatórias da Taça UEFA em que o Benfica precisava de marcar 3 golos no último minuto para ultrapassar um qualquer clube da Eslováquia. Tirando isso, não rezava e pouco ia à Igreja. Quando ia, fazia questão de levar sempre uma arma. Não confiava em freiras, dizia.

Pouco se conhece da sua vida profissional. Pensa-se que terá praticado a zoofília, actividade que, face à saturação do mercado, e ao não cumprimento das vacinas necessárias, cedo se viu obrigado a abandonar, desgostoso.

É recordado como um homem sem vícios. Fumou durante uns tempos, é verdade. Mas terá sido sol de pouca dura. Felizmente, dizia Raimundo, a heroína tinha-o libertado para sempre desse vício nocivo que é o tabaco. Ainda assim, levando à letra que o Tabaco Mata, sentia-se mais seguro tendo um maço de cigarros no bolso, não fosse ser atacado por bandidos (ou judeus, como ele, alegremente e sem malícia, os chamava).

Sincero e directo, não era pessoa de intrigas, nem de pôr rótulos nos outros, e muito menos gostava que lhe pusessem rótulos a ele. Principalmente devido ao incómodo de aqueles o fazerem apitar à saída dos supermercados.

O Raimundo era uma pessoa solitária, pouco se dava com o mundo exterior, raramente saía de casa. De sua vida amorosa conta-se uma breve relação com uma senhora (pensa-se que era uma senhora). Todos os domingos, sempre às 9h da manhã, ela tocava-lhe à campainha e dizia ‘publicidade, pode abrir, por favor?’, e ele dizia, ‘com certeza’, ela agradecia. Ah!, como estes diálogos lhe enchiam o coração! E esperava, ansiosamente, pelo próximo domingo, pelo próximo encontro. Ela dizia-lhe palavras românticas como ‘Dica da Semana, pode abrir por favor?’, ou um, pungente de erotismo ‘Publicidade do Modelo, pode abrir por favor?’. Raimundo guardava religiosamente os panfletos (ou cartas de amor, como lhes chamava) que ela deixava na caixa do correio, mal ligando às fantásticas promoções que estes semanalmente anunciavam. Mas um dia ela não apareceu e Raimundo nunca mais soube da mulher com quem tencionava casar. Jurou-lhe fidelidade e amor eternos. Julgo que nunca mais se apaixonou. Raimundo não sentira uma dor tal desde o dia em que o seu amigo imaginário desaparecera sem deixar rasto.

Havia quem o chamasse de psicopata, outros de estúpido, ou mesmo de extremamente estúpido. Havia quem o chamasse de Raimundo. Eu chamei-o de Jantar.

 

 

                                                                                  Ass:  Juvenal, o canibal


 


publicado por jabcatarino às 21:18 | link do post | comentar | favorito

5 comentários:
De Miguel Gomes a 25 de Novembro de 2008 às 22:43
Pá, já percebi que a tua especialidade são as surpresas no sapatinho. O teu estilo é mesmo esse: vais andando, vais andando e de repente, sem aviso, dás uma guinada para a esquerda e apanhas as pessoas desprevenidas. Achei engraçado, a modo-de-crónica-do-Mário-Zambujal-meets-Nuno-Brederode-Santos-or-something-in-between.


De Marta a 26 de Novembro de 2008 às 14:22
Gosto muito. Adoro. A frase aparentemente banal e o subtil choque frontal a terminá-la. E a nuvem deprimente que paira sobre todo a vida do Raimundo. Muito bom. Comecei a rir logo em confettis.


De Guilherme Fonseca a 26 de Novembro de 2008 às 15:28
Pá, fartei-me de rir. Já te tinha dito, e repito aqui para ficar nos anais do blog, és o mestre da turma em onliners. Devias escrever milhares delas. Olha aqui esta:

"Sincero e directo, não era pessoa de intrigas, nem de pôr rótulos nos outros, e muito menos gostava que lhe pusessem rótulos a ele. Principalmente devido ao incómodo de aqueles o fazerem apitar à saída dos supermercados."

Ri-me tanto! E o fim é delicioso. O texto não precisava mas ganha e muito com a última frase. A diferença de um texto "engraçadinho" para um texto realmente cómico. Vivam os twist's finais!

'Tás lá.
gui
(ramboiablog.blogspot.com)


De João Silva a 26 de Novembro de 2008 às 23:57
Idem, aspas. Mesmo quando o leitor percebe que o vais surpreender e que não vais fazer a piada mais óbvia - que poderia ser boa à mesma -, não se adivinha a boa surpresa que por aí vem. Parabéns!


De Mário Calado a 27 de Novembro de 2008 às 19:32
Gostei especialmente de "Raimundo não sentira uma dor tal desde o dia em que o seu amigo imaginário desaparecera sem deixar rasto."


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