Domingo, 5 de Outubro de 2008
Esta história aconteceu de facto no funeral do meu avô.

"Estávamos todos reunidos em redor do caixão, fechado, na maior sala da casa. Os habitantes, amigos do meu avô, misturados com os familiares, todos estavam espalhados pela sala, todos virados para o centro, para o caixão. Pessoas de aldeia mas não como os estereótipos as pintam, maioritariamente velhotes e cinquentões. O Padre entrou na sala para fazer ler uma parte da biblía em memória do meu avô e toda a gente se calou, só se ouviam soluçares intermitentes. O Padre inicia a leitura com toda a gente em silêncio. De repente ouve-se um som agudo, contínuo, incomodativo. Uma velhota olha para o marido, de olhos no chão, e dá-lhe uma cotovelada. O respectivo não reage. O som pára tão rapidamente como começou e um telemóvel toca. O Padre não pára de ler, apenas tosse demonstrando a incomodação com o toque de telemóvel. Continua a ler. Segundos depois o som agudo volta novamente. A sala contorce-se com a dor que aquele som provoca nos ouvidos. A velhota da cotovelada olha para o marido e dá-lhe outra cotovelada. Este encolhe os ombros, confuso. O som pára e novamente se ouve o mesmo telemóvel a tocar. A melodia monocórdica e repetitiva estilo Nokia faz o Padre tossir em tom de reptimenda ainda mais, irritado com aquilo, e trocar o seu peso do pé direito para o esquerdo. Não pára de ler. As pessoas olham todas umas para as outras procurando saber de quem é o telemóvel que está a interromper a cerimónia. Os olhares inquisidores percorrem as caras todas. Alguns discretos, tiram os seus do bolso e vêem se são os acusados. Novamente o som agudo. A velhota vira-se para o marido e faz um gesto para a orelha. O homemzinho de semblante assustado solta um "ah", põe a mão sobre a orelha e desliga o aparelho auditivo. O som pára de repente. A velhota encolhe os ombros irritada. O homem encolhe-se para dentro da multidão. O telemóvel toca novamente, frenético. O Padre pára de ler e olha a sala indignado. Quando o faz muda de expressão repentinamente e põe a mão num bolso da batina. Tira o telemóvel, cujo toque se torna mais audível, e desliga-o. A leitura prossegue. Todos de olhos postos no caixão."

Espero que sirva...


publicado por João Silva às 18:21 | link do post | comentar | favorito

5 comentários:
De Jorge a 5 de Outubro de 2008 às 18:35
A história está muito boa. Dava um bom sketch.

Faz-me lembrar uma série que agora dá na Britcom (não sei o nome, desculpem, mas é com um dos actores do Green Wing, o que se parece com o burro do shreck) sobre um gajo que anda nos Alcoólicos Anónimos. E num dos episodios, antes do funeral de um dos colegas dos AA, ele está sozinho, com uma chavena de café, junto ao caixão a 'confessar-se' ao morto. Sem querer entorna café para cima do morto, sujando-lhe o fato. Decide que a melhor maneira de resolver a situação é trocar de fato com o morto.
Na cena seguinte já está o padre a fazer a récita, com os familiares e parentes em volta do caixão... toca um telemóvel... e o som vem do caixão.

Já agora, vocês estão a tomar atenção ao 'limite' que o E.Madeira pôs, de 14 linhas, ou estão a fazer free-style?


De guifonseca a 5 de Outubro de 2008 às 18:43
Merda, esse sketch que contaste tem mil vezes mais piada que isto... lol mas também a história não é hilariante...

Eu escrevi em total e completo free-style... :S
Em Word, tamanho 12, isto tem 26 linhas, portanto...


De Mário Calado a 5 de Outubro de 2008 às 20:06
A série chama-se Nunca Melhor e tenho indicação da programação que hoje dá o último episódio. O sketch referido é mesmo o fim do episódio, por isso também um climax. A tua história é muito boa e de certa forma mais verosimil. E pode ser muito trabalhada para além do enredo que já tem.


De Marta a 5 de Outubro de 2008 às 23:07
A tua está bem também Guilherme. Se quiseres dá-lhe só uns retoques ao teu estilo e resulta tal como um sketch. Eu continuo a só ter o creme de cenoura na cabeça. Foi verdade, mas não vai parecer...


De Marta a 7 de Outubro de 2008 às 10:16
Viste, agora é pores o telefone no casaco do morto (esquecendo que é o teu avô) e o embaraço de saber quem avança para o desligar... ou atender! E o atender… o atender abre todo um novo mundo de possibilidades! Que dizer, como atender, como explicar? Quem seria e por que não estava presente?


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