Sábado, 4 de Outubro de 2008
Tenho de confessar que ponderei bem antes de por este meu trabalho aqui. Por várias razões, que vão desde a minha segurança enquanto indivíduo, até ao futuro a médio prazo em que todos vamos ser famosos e alguém descobre isto aqui e me lixa a vida. Enquanto indivíduo.

Mas depois de considerar, tenho de dizer que acho piada ao que escrevi. Apesar de ser politicamente incorrecto, violento e bruto, também quero que funcione pelas camadas subterrâneas que coloquei por baixo das piadas agressivas.

Assim sendo, aqui está o meu trabalho para o Roberto Pereira, sobre os "Para-Olímpicos", num tipo de comédia que nunca tinha usado para escrever...

"Tenho pena. Tenho pena que o espectáculo que são os Para-Olímpicos não tenha tanta popularidade como o seu parente directo. Acredito sinceramente que seja pela falta de escândalos, algo que o espectador comum adora ver em eventos desta amplitude. Há uma enorme falta de mediatização, vulgo fofoca, e na minha opinião tudo se deve a três pequenos problemas. O dopping não é perseguido, é encorajado. As alegações dos atletas não são glorificadas, são incompreensíveis. E as lesões não são espontâneas, são evidentes.

Em relação ao dopping, por exemplo, as análises de urina não existem de todo. Primeiro porque uma algália é muito mais difícil de fiscalizar que um bairro dos arredores de Lisboa e segundo porque a maior parte dos participantes dos Para-Olímpicos há bastante tempo que substituiu o médico de família por um mecânico.

O segundo problema são as alegações dos atletas, que nos jogos Olímpicos são um dos pontos altos de entretenimento e aqui totalmente inexistentes. Toda a gente viu o Phelps vangloriar-se das suas medalhas e gostou, mas ouvir um atleta com paralisia cerebral, medalhado em Boccia, a falar contente e entusiasmado requer legendas e isso parece mal. É que nem com o Eusébio se faz.

O terceiro problema que afasta o público é a problemática das lesões. Os fãs de atrocidades humanas em directo, que rejubilam pelo Bynia em competições europeias por exemplo, estão longe de assistir aos Para-Olímpicos. Tudo porque estes fãs de lesões gostam de as ver acontecer, não gostam de as ver a serem mantidas. Defendem que se é para ver “coisas a correrem mal” preferem antes ver o nascimento dos atletas Para Olímpicos e não as suas provas. Um ciclista cair e a esfolar-se, alegra. Um skiador despistar-se e partir duas pernas, alegra. Um Para Olímpico lançador de pesos ter um azar na sua prova não alegra porque muito provavelmente o acidente até vai parecer uma coisa natural.

Uma ideia que defendo para se salvar esta falta de popularidade é a de trazerem-se atletas Olímpicos para os jogos Para-Olímpicos. O Bolt é o homem mais rápido do mundo, óptimo para ele. Agora cortem-lhe uma perna pelo joelho e roubem-lhe as medalhas! A Naide Gomes foi visionária neste aspecto. Depois do seu desaire tentou a sua sorte nos Para-Olímpicos mas passou despercebida. Não tinha nem aparelho, nem uma maneira esquisita de falar, nem tinha acabado de ganhar uma medalha de ouro em Triatlo.

A meu ver, a principal causa deste problema é o facilitismo que existe na área. Os Para-Olímpicos são apoiados e ajudados diariamente até chegarem às provas. Parem com isso. Acabem com as rampas, com as cadeiras de rodas e com os elevadores. Experimentem por a medicação toda da delegação portuguesa no último andar do hotel e desliguem os elevadores, vão ver que assim estão a mostrar verdadeiramente um espírito de competição. Facilitismos. Os corredores de maratona cegos têm um ajudante com eles durante toda a prova, que vê! Percebem o que quero dizer? Abandonem esse atleta completamente sozinho num campo minado e vejam-no descobrir o prazer do desporto!

Vamos salvar a popularidade deste jogos porque eles merecem! Um jogo consiste em atletas, competição e vencedores. Querem juntar deficiências ao cocktail? Então escolham-nas bem. Acabem com os cegos, os paralíticos e o Vicente Moura. Ponham ciciosos a ler Lusíadas. Gagos a acompanhar letras dos cd’s dos Da Weasel. Ponham manetas a jogar matraquilhos! Vamos criar espectáculo dentro dos Para-Olímpicos. Surpreender, alegrar e inovar para levar os Para-Olímpicos mais além. Mesmo que seja preciso alguém a empurrar."


publicado por João Silva às 18:39 | link do post | comentar | favorito

8 comentários:
De Miguel Gomes da Costa a 4 de Outubro de 2008 às 18:46
O George Carlin telefonou-me do Além e pediu-me para te deixar um recado:


"Pussy!"


De guifonseca a 4 de Outubro de 2008 às 18:50
Sabes o que é que tem piada?

É que tens razão... lol

gui
"pussy"


De João Silva a 4 de Outubro de 2008 às 19:40
De novo, os meus parabéns. Acho que o texto está mesmo muito bom, com piada e que se percebe que não estamos a insultar ninguém. As sugestões que poderia fazer são meros acertos de linguagem e um pequeno corte aqui e ali, mas nada de especial.

Agora escreve um texto assim mas com os braços partidos, só para aumentar o nível da competição :D


De guifonseca a 4 de Outubro de 2008 às 20:25
:)

vou já passar tudo a limpo... com o nariz. Se correr bem, depois experimento com outras partes do corpo, que não são para aqui chamadas...

:P


De leloupfou a 4 de Outubro de 2008 às 20:55
Fantástico!

Não entendi isto:"Não tinha nem aparelho, nem uma maneira esquisita de falar, nem tinha acabado de ganhar uma medalha de ouro em Triatlo"
A Naide Gomes não é do triplo salto?

Aqui acho que as vírgulas estão malucas.
"...mas ouvir um atleta com paralisia cerebral, medalhado em Boccia, a falar contente e entusiasmado requer legendas e isso parece mal. É que nem com o Eusébio se faz."

Quando só se tem isto para dizer ao nível da crítica, é porque passei o tempo agarrado à barriga a rir.


De guifonseca a 4 de Outubro de 2008 às 21:14
Bem visto, loup,

Falta uma virgula depois de "entusiasmado" e antes de "requer", para separar as duas ideias e deixar respirar antes da punch line.

Em relação à piada da Naide sempre achei que não funcionava na perfeição mas que mesmo assim passava. Parece que não. Aparelho + maneira esquisita de falar + medalha de ouro em Triatlo = Vanessa Fernandes. O objectivo desta piada era dizer que a Naide Gomes não conseguiu passar por Para-Olimpica porque não consigo passar por Vanessa Fernandes... está mal construído então. =)

Obrigado pelas observações. =)
gui


De Marta a 5 de Outubro de 2008 às 11:31
Já tinhas a referência ao Bynia na aula? Lol não me apercebi. Gosto muito: atrocidades humanas e Bynia na mesma frase faz todo o sentido, quase chega a não ser humor, é facto!
Eu gostei muito deste teu texto. Não achei que fosses bruto ou incorrecto e o tema exigia que os caminhos fossem estes. Se para ti ainda o foste é porque o teu limite (para já, não quer dizer que mude) anda por aqui. Pelas opiniões que tiveste vês que se podia ser bem mais cruel. Agora graça, não tenhas dúvida que o texto tem (na minha opinião de espectadora, ouvinte, colega, Judas, jarrão... e ainda há quem me chame Pinilla. Estou a chocar uma crise de identidade...).


De guifonseca a 5 de Outubro de 2008 às 13:20
Não, nem ao Bynia, nem ao bairro dos arredores de lisboa. Piadas novas devem ser só essas, se me lembro, mas estrutura dei uns jeitos grandes, principalmente na gramática e no fraseamento.

Obrigado pelas palavras, Jarrão. Judas... Mart... tu! Obrigado, tu!

=P


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