Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Não sei se é para o desafio (vocês vão no I eu já publiquei dois pessimistas...) mas também não interessa que eu vou escrevendo e postando, porque mais tarde ou mais cedo meto férias e depois não posto nada. Um soquete sobre essa arte antiga que é o trabalho.

 


SKETCH – HOMEM DE TRABALHO
Em frente a uma casa um Velho é entrevistado por um Repórter de rua de microfone na mão. O Velho responde todas as perguntas a olhar para a câmara. O Repórter vira o microfone para si quando fala mas vira imediatamente para o velho quando é interrompido por ele.


VELHO
Eu? Eu fui sempre um homem de trabalho.


REPORTER
E naquele tempo…


VELHO
Sempre a trabalhar. A minha vida foi sempre a trabalhar. Eu começava a trabalhar logo de manhãzinha, trabalhava de tarde, trabalhava à noite e trabalhava de madrugada. Sempre a trabalhar. Eu? Eu sempre fui um homem de trabalho. Sempre a trabalhar…


REPORTER
E que idade tem o senhor?


VELHO
Eu nasci em 1929… Sempre a trabalhar… Em 28 já eu estava a trabalhar.


REPORTER
Em 28?


VELHO
Sim, a trabalhar… Em 28 não, (olhando para o repórter) em 38. Com dez anos já eu trabalhava. A minha vida foi toda a trabalhar. Sempre a trabalhar. De pequenino logo a trabalhar. Cresci a trabalhar, sempre a trabalhar. Casei-me a trabalhar, fiz os meus filhos a trabalhar, criei-os sempre a trabalhar…


REPORTER
Mas o que é que o senhor…


VELHO
Um dia, (olhando brevemente para o repórter) psst quer ouvir. Um dia estava eu a trabalhar e chegou o patrão e disse-me: Oh! Zé que é que estás a fazer? Estou a trabalhar disse-lhe eu. Oh! Zé, disse-me ele, queres mais trabalho? (olhando brevemente para o repórter) E sabe o que é que eu lhe disse? Disse-lhe: quero pois. E ele não foi de modas e disse-me: então, toma!
(ri-se muito)
Então toma, ai que cabrão aquele. Ai queres, toma!


REPORTER
Mas o senhor já não trabalha…


VELHO
(Olhando brevemente para o repórter) Eu tenho 80 anos e estou sempre a trabalhar, a minha vida foi sempre a trabalhar, fui sempre um moiro de trabalho, foi uma vida de trabalho. Sabe, vou dizer-lhe uma coisa… A minha vida… Foi sempre a trabalhar, sempre a trabalhar. Eu? Trabalho? Sempre. Eu? Sempre a trabalhar…


REPORTER
E qual era o seu trabalho?


VELHO
Eu? (olhando brevemente para o repórter)


REPORTER
Sim qual era a sua profissão?


VELHO
Eu?... Então o meu trabalho era abrir e fechar a cancela.


REPORTER
A cancela?


VELHO
Pois a cancela… Eu era guarda da passagem de nível e quando o comboio estava para passar eu fechava a cancela, quando ele passava eu abria. Eu? Estava sempre a trabalhar…


REPORTER
Então e passavam muitos comboios?


VELHO
Muitos. Era muito trabalho. Naquele tempo não havia semana que não passasse pelo menos um comboio. E eu, sempre a trabalhar…


Chega uma Velha, a mulher do Velho, que se vai pondo ao lado dele sempre a olhar para a câmara.


REPORTER
E a senhora…


VELHA
É mentira nunca fez nada na vida.


VELHO
Não ligue…


VELHA
Quem dava à manivela para fechar e abrir a cancela era eu, que ele estava sempre na taberna com os amigos e quando de lá vinha já não via um comboio à frente dos olhos.


VELHO
Eu? Cala-te. Não ligue. Eu a minha vida foi sempre a trabalhar, sempre a trabalhar…


VELHA
É mentira, não o oiça. Agora em velho desde que lhe tiraram o fígado é que começou a fazer qualquer coisita.


VELHO
Eu? Eu? Sempre a trabalhar… Cala-te…


Ficam todos calados a olhar uns para os outros e para a câmara.


VELHO
(arrancando)
Vou mas é trabalhar.


 



publicado por Mário Calado às 10:17 | link do post | comentar | favorito

7 comentários:
De João Silva a 11 de Dezembro de 2008 às 11:41
Gostei, consegue ir crescendo e surpreender quando descobrimos o tal imenso trabalho que ele tinha. E a troca das datas e outros pormenores dão aquele toque extra.

Agora vou trabalhar.


De inka76 a 11 de Dezembro de 2008 às 19:07
A do fígado é muito subtil ;)


De jabcatarino a 12 de Dezembro de 2008 às 10:38
Não sei porquê, mas imaginei o Eduardo Madeira a fazer este sketch, a dizer «estou sempre a trabalhar, a trabalhar».
É daqueles à Gato Fedorento, que tu pensas «realmente, conheço/estou sempre a ouvir pessoas que dizem isto. Constantemente». Acertaste em cheio no reconhecimento. Mesmo nas nalgas!


De Mário Calado a 13 de Dezembro de 2008 às 08:00
Também me lembrei do Madeira quando estava a fazer isto!


De Le Loup Fou a 15 de Dezembro de 2008 às 17:35
Adorei...

Pois eu lembrei-me de mim próprio (em formato matarruano) e do Gui como velha.

Só tirava uma coisa:
"REPORTER
E a senhora… "

Punha a velha a intrometer-se sem o reporter dar a deixa.


De Mário Calado a 16 de Dezembro de 2008 às 10:11
Só se prometeres não enfiar trinta mil buchas ;) Se o Gui quiser repetir a experiência e as PF derem câmara, porque não?


De Le Loup Fou a 20 de Dezembro de 2008 às 18:29
Está prometido... não garanto 1 ou 2, mas a partir daí está prometido.


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